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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015



 
 

Era inevitável”. Florentino e Firmina Daza, não se tinham cumprindo até então, na verdade não se tinham esgotado. Foi por isso, que o tempo de serem jovens se prolongou apesar de todos os artifícios do passado.
 As primeiras coisas, se nos ficam, gostamos de as viver, através de um tempo distorcido, até mesmo através de outros, como se mergulhassemos,  na penumbra, do que deixou de ser urgente. Florentino, quis, recordar o destino dos amores contrariados, ás vezes, fazendo turnos mas, sem nunca se deixar atenuar. E sabia que, o que o contrariava  só trazia os factos como eles são; um bocado de trabalho duro e mal pago e a Firmina a interdição a comportamentos impetuosos.
 Florentino, acreditava que o que se faz sozinho, não tem magia, não tem influências, por isso precisou  de  Firmina e foi buscar esse pedaço de prosa que havia guardado na memória e que tanto plagiou, até  somar  “…  51 anos, nove meses e 4 dias “ de procura. Esta procura, foi uma experiência , singularmente certa, uma promessa de futuro  que ganhou a todas  as  necessidades do momento, e , por muito tentadoras que estas tivessem sido, não chegaram tão longe.
 Não basta nascer no lugar, é preciso transformar o lugar. Arranjar, maneira de entregar a carta e deixar que esta floresça alguma coisa no espaço dessa memória. E, o mérito de quem a recebe, é levar-nos á letra e ser capaz de duvidar que essas tenham sido as ultimas palavras. E este foi, talvez, o mais difícil triunfo de Florentino; esse “ caçador” solitário.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014


Charles de Gaulle, dizia que; o seu único rival em plano internacional era o Tim Tim.
Ter auto-ironia, ser corajoso e frontal e principalmente ir um pouco mais além da competência tecnocrática é sempre desejável no exercício de cargos públicos, principalmente porque levam á intervenção em estimável tempo útil. Há outras virtudes que podem fazer um bom político mas  não são tão boas.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

" Inventário de Regressos "




  
 Swimsuit

Inventário de regressos ao patamar do quinto andar onde não mora ninguém:

 Os terraços que ficam um forno; o comboio da linha; as boleias para a praia ; o bairro das vivendas para aprender andar de bicicleta; os patins brancos com atacadores; passear os cães grandes; cartas escritas á mão; todas as minissaias ; os jeans boca de sino; os chapéus de palha; ficar na praia até a areia estar fria; a vitalidade pura e alguma animalidade; o cheiro de água de colonia; as festas no cabelo; as pernas morenas esticadas sobre o teu peito; todas as vésperas; o meio do nada e algum lugar onde nos encontramos; a fúria que nivela tudo; a melhor parte da índole humana.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A “ Amante holandesa







Compreende? Começa assim, a “ Amante Holandesa”, um livro que nos desafia mais a valorizar  as sensações causadas, do que aquelas, que são verbalizadas pelo autor. Rentes de Carvalho usa uma linguagem directa, impressionista, mas deixa espaço para a imaginação. Melhor; dá-nos liberdade .

 Não me lembro do dia em que li este livro, mas sei que, o tempo narrativo passou depressa, através da conversa que o autor estabelece sobre a história de dois conterrâneos com quase sessenta anos. Um deles, professor, que nunca renunciou a uma vida comoda mas sem recursos emocionais, é um homem sem coragem, e outro; Gato, que emigrou para Holanda para ser estivador e aí teve uma amante. A magia, deste ultimo personagem, opõe-se á palidez do outro, avaliando-se o vazio que pode existir na vida daqueles, que nunca fizeram nada de arriscado, tudo isto, ligado pelo efeito de uma amante holandesa, que pretende em ambos dar-lhes a ilusão de que o amor existe. E consegue, pelo impacto desafiante que o relato de um tem no outro.

È uma história do imprevisto, cujo personagem principal é um pastor, sem culpa por não ter estudado e, por não ter, uma casa cheia de livros com o pronuncio da sabedoria de todas as profissões. Gato, só tinha uma coisa invejável; a firmeza, e era com esta que ..” pedia ameaças ao mundo…”. Só realizou um sonho, mas soube dar-nos mais. E dar é uma superioridade recomendável. Gato, deixa-nos a ideia de ser um fim de tarde …” com uma ilusão de criança que vivia uma vida de Homem”. Gato, tinha saudades, porque foi capaz de viver a melhor coisa que lhe aconteceu na vida ; uma mulher. È angustiado, no regresso á aldeia porque esta não o compreende, mas no isolamento consegue tréguas com os seus fantasmas interiores. Quer ser feliz.  E este convite é irrecusável.

 Aniquilou-se, pela ilusão de um amor obsessivo, por uma amante que nunca conseguiu prender contra sí, por muito que lhe tenha estendido os braços. Clarisse ; a amante Holandesa   ensina a  uns, e relembra outros que, tudo tem um preço e tudo tem um fim.  E, Gato, o pastor emigrante ensina, que, por só se ter realizado um sonho não se falhou a vida. È uma história de poder, entre um homem e uma mulher, vivida sem pudor e terminada sem culpas. Um recomendável desafio a presumíveis principiantes. Defende a atitude , do “mata-te que isso passa-te”. E antes de mais, que, tocar, a amante, “ …a resplandecer de beleza …”  pode ter mágoa. Convida-nos a enamorarmo-nos pela ideia da crueldade bem calibrada, e que mesmo quando o  “ sexo foi ontem “,  ser fugaz  não implica desconforto, e isto pode ser vivido.  *“ je ne suis pas heureux, mais je me sens bien”. Ninguem se prepara o suficiente para esquecer isto.

* ( marquês de sade em carte ao seu procurador)

terça-feira, 3 de junho de 2014

“ Good Bye Lenine “



Agora, que o sol já se pôs todas as vezes sobre os telhados de Lisboa, escrevo a carta. Uma carta, é, como se espera, para os outros e para sempre. Para isso, conto as vozes que me levaram até onde me encontro agora, e essas, que não receiem ser esquecidas, pois só dentro de todas as contradições, pode residir a vivência. E toda a vivência tem um tema; encontrar a própria vida.
Apreendi o desamparo, num formato criativo e ardiloso. È recorrente, a minha ideia, de transformar qualquer idílio num drama, buscar amores, que, teimam em ser como se espera; sólidos e truculentos, vivos e incorrespondidos. Traídos por tudo. Erguidos. A esta maquinação dos amadores, pertence um inventário de regressos, a um lugar onde já não mora ninguém, e que, todavia nos remete sempre.
Encontrei, o desamor, essa ausência assistida; ao lembrar os terraços que ficavam um forno; o comboio da linha; as boleias para a praia; o bairro das vivendas para aprender andar de bicicleta; os patins brancos com atacadores; o passeio com os cães grandes; as cartas escritas á mão; a vitalidade pura e alguma animalidade; o cheiro de água de colonia; as festas no cabelo;  as pernas morenas esticadas sobre o teu peito; o meio do nada e algum lugar onde nos encontramos; a fúria que nivela tudo e a melhor parte da índole humana. Faz-me falta. Dizia, Pessoa; que, “...não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.” Fui capaz de ter todas.
Cada desamor tem o seu desencanto; o seu desamparo próprio, e cada história, guarda o seu bocado. A minha história, a história mundial, ou a história da família, alinha-nos a trajectória e optimiza-nos os recursos, por contrário que pareça. Fica-se mais forte. O desamor resolve-nos. Sintetiza-nos. È verdade.
 O filme “Good bye Lenine”, assinala a trajectória descendente de Jãhn, seu personagem principal, que passa, de herói a motorista de táxi , referindo-se, simbolicamente,  á derrocada da RDA, e, com  humor, evidência a desgraça que a danificação dessa “ estrela vermelha “ pôde ainda provocar em alguns nichos de população; aqui, está o desamor na história mundial. Quando os prémios Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa, cortaram relações e estabeleceram um pacto de silêncio sobre as razões que sustentaram essa atitude, estão a ser devolvidos os desamores das histórias “entre pares”, entre famílias, nestes escritores de ”sangue”.

 Fassbinder e Henry Miller, em períplos, por desamores, nem sempre conformes, elogiam a vontade de querer construír uma vida que nos sirva; com menos ou mais “ lágrimas amargas” , e que, seja, ao mesmo tempo, uma experiência cínica e inocente secular e espiritual. Daqui, sempre autobiográfico e idiossincrático está esta história; a redescobrir, em dias e noites de liberdade e alegria sem fim. Deixo esta carta, á porta da tua casa, dois anos depois.