Mostrar mensagens com a etiqueta Ensaio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ensaio. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014



Ao Pai, pelo poder da presença
Meu Herói

" Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía, haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e era preciso apontar com o dedo...e no momento em que ... acabasse de decifrar os pergaminhos .... tudo o que neles estava escrito era irrepetível para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade na terra..."

Gabriel Garcia Marquez
"Cem anos de solidão "

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

" Good Bye Lenine"






 


   
“ Good Bye Lenine “
Agora, que o sol já se pôs todas as vezes sobre os telhados de Lisboa, escrevo a carta. Uma carta, é, como se espera, para os outros e para sempre. Para isso, conto as vozes que me levaram até onde me encontro agora, e essas, que não receiem ser esquecidas, pois só dentro de todas as contradições, pode residir a vivência. E toda a vivência tem um tema; encontrar a própria vida.
Apreendi o desamparo, num formato criativo e ardiloso. È recorrente, a minha ideia, de transformar qualquer idílio num drama, buscar amores, que, teimam em ser como se espera; sólidos e truculentos, vivos e incorrespondidos. Traídos por tudo. Erguidos. A esta maquinação dos amadores, pertence um inventário de regressos, a um lugar onde já não mora ninguém, e que, todavia nos remete sempre.

Encontrei, o desamor, essa ausência assistida; ao lembrar os terraços que ficavam um forno; o comboio da linha; as boleias para a praia; o bairro das vivendas para aprender andar de bicicleta; os patins brancos com atacadores; o passeio com os cães grandes; as cartas escritas á mão; a vitalidade pura e alguma animalidade; o cheiro de água de colonia; as festas no cabelo;  as pernas morenas esticadas sobre o teu peito; o meio do nada e algum lugar onde nos encontramos; a fúria que nivela tudo e a melhor parte da índole humana. Faz-me falta. Dizia, Pessoa; que, “...não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.” Fui capaz de ter todas.

Cada desamor tem o seu desencanto; o seu desamparo próprio, e cada história, guarda o seu bocado. A minha história, a história mundial, ou a história da família, alinha-nos a trajectória e optimiza-nos os recursos, por contrário que pareça. Fica-se mais forte. O desamor resolve-nos. Sintetiza-nos. È verdade.

 O filme “Good bye Lenine”, assinala a trajectória descendente de Jãhn, seu personagem principal, que passa, de herói a motorista de táxi , referindo-se, simbolicamente,  á derrocada da RDA, e, com  humor, evidência a desgraça que a danificação dessa “ estrela vermelha “ pôde ainda provocar em alguns nichos de população; aqui, está o desamor na história mundial. Quando os prémios Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa, cortaram relações e estabeleceram um pacto de silêncio sobre as razões que sustentaram essa atitude, estão a ser devolvidos os desamores das histórias “entre pares”, entre famílias, nestes escritores de ”sangue”.

 Fassbinder e Henry Miller, em períplos, por desamores, nem sempre conformes, elogiam a vontade de querer construír uma vida que nos sirva; com menos ou mais “ lágrimas amargas” , e que, seja, ao mesmo tempo, uma experiência cínica e inocente secular e espiritual. Daqui, sempre autobiográfico e idiossincrático está esta história; a redescobrir, em dias e noites de liberdade e alegria sem fim. Deixo esta carta, á porta da tua casa, dois anos depois.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

“ E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto”“ Rubem Fonseca



Diz-se que, Freud, quando foi interrogado sobre o significado de fumar charuto respondeu   que; “ Às vezes um charuto é apenas um charuto” livre de desejos reprimidos. A mim, não me convence por completo. Tudo no charuto me estimula a imaginação no sentido; do poder no  masculino. Muito importante para me relacionar. Mesmo sem estar perto dos homens neste momentos, absorvo esta ideia, do tamanho, da fumaça, projectada do interior para o exterior, e isso embala-me e tal como aos fumadores impede-me de vêr com nitidez o mundo á minha volta. A atmosfera fica turva. Parece, uma meia verdade ou uma não verdade que está ali para nós. Pronta a ser protagonizada. Segundo a psicanálise esta ideia  pode levar á construção do Alter ego. Quem sabe.

Freud fumou charuto sempre, cerca de vinte por dia, por isso sem charutos não teria havido psicanálise e ao contrário das declarações que lhe atribuíram, um charuto vale por tudo, menos por sí próprio. È evocativo de status social e autoridade paterna, um verdadeiro ritual de iniciação. Uma ambição.

O charuto é uma recompensa ou um alívio uma substância de lazer, um apetite físico e espiritual, um atributo hedonista. Não é precário nem efémero, antes individualista, pelo desejo dominante. “Bebo muito. Quase não durmo e fumo um charuto atrás do outro. É por isto que estou duzentos por cento em boas condições físicas e mentais." (Winston Churchil)

Por curiosidade, a palavra charuto deriva de cheroot, um tipo de charuto muito popular na era vitoriana. Muito depois vem a história dos “ Cohiba” que começou com os charutos fumados por um guarda costas de Fidel de Castro, que, ao notar o aroma que exalavam mandou doravante produzi-los no mesmo local. A aparência fálica do charuto é tangível porque testemunha a virilidade. Celebra a vida e pode até ser uma alternativa ao vazio da existência. Diz-se que Pablo Picasso nasceu morto e Don Salvador, seu médico soprou-lhe fumo de charuto na cara e este fez com que ele começasse a chorar.